terça-feira, 15 de agosto de 2017

Uma olhada para trás no deserto


E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não. Deuteronômio 8:2

Nunca se envelheceu a tua roupa sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. (Deut. 8:4)

Nada faltou durante estes quarenta anos. Que graça maravilhosa brilha nessas palavras! Pense-se em Javé cuidando do Seu Povo, de maneira que os seus vestidos se não envelhecessem e se não inchassem os seus pés! Não somente os alimentou, mas vestiu-os e cuidou deles de todas as maneiras. Até Se debruçou para cuidar dos seus pés, para que a areia do deserto os não pudesse magoar! Assim, por quarenta anos, velou por eles com toda a delicada ternura do coração de um pai. O que não empreenderá o amor em favor do objeto amado? O Senhor amava o Seu povo e este bendito fato assegurava tudo em seu favor, se apenas o tivessem compreendido. Não havia uma única coisa dentro dos limites das necessidades de Israel, desde o Egito a Canaã, que não tivesse assegurada para eles e incluída no fato de que o Senhor havia proposto realizá-la por eles. Com amor infinito e poder onipotente a sua favor, que poderia faltar-lhes?

Mas, como sabemos, o amor reveste-se de várias formas. Tem mais alguma coisa a fazer do que prover alimento e vestuário para o objeto amado. Não só tem de atender às suas necessidades físicas, mas também às necessidades morais e espirituais. O legislador não deixa de recordar isto ao povo. "Confessa, pois", diz ele, "no teu coração que" — a única maneira verdadeira e eficaz de considerar —"como um homem castiga o seu filho, assim te castiga o SENHOR, teu Deus." Ora nós não gostamos de ser castigados; não é agradável, mas doloroso. 

Está tudo muito bem quando um filho recebe alimento e vestuário da mão de seu pai, e todas as suas necessidades são satisfeitas pelo cuidadoso amor de seu pai; mas não lhe agrada ver o pai pegar na vara. E, todavia, essa temida vara pode ser a coisa mais conveniente para o filho; pode ser para ele o que os benefícios materiais ou o bem-estar terreno não podem conseguir; pode corrigir qualquer mau hábito ou livrá-lo de alguma má inclinação, ou salvá-lo de alguma má influência, e ser assim uma grande bênção moral e espiritual pela qual ele terá de ser agradecido para sempre. O ponto importante para o filho é ver o amor e cuidado do pai na disciplina e castigo tão claramente como nos diversos benefícios materiais que são espalhados pelo seu caminho, dia a dia.

É aqui precisamente onde nós falhamos muito a respeito dos atos disciplinares de nosso Pai. Regozijamo-nos com os Seus benefícios e bênçãos; estamos cheios de louvor e gratidão à medida que recebemos, dia a dia, da Sua mão liberal, o rico suprimento de todas as nossas necessidades; deleitamo-nos em meditar sobre as Suas maravilhosas intervenções a nosso favor em tempos de aperto e dificuldade; é um precioso exercício volver os olhos para o caminho pelo qual a Sua benigna mão nos tem conduzido, e marcar os "Ebenezeres"* que nos falam do precioso auxílio que nos tem dado ao longo de todo o caminho.

Tudo isto é muito bom, muito justo e precioso; mas então existe o grande perigo de descansarmos nas misericórdias, nas bênçãos e benefícios que emanam, em tão rica profusão, do coração amantíssimo de nosso Pai e da Sua bondosa mão. Estamos dispostos a descansar nestas coisas e a dizer como o salmista: "Eu dizia na minha prosperidade: Não vacilarei jamais. Tu, SENHOR, pelo teu favor fizeste forte a minha montanha" (SI 30:6-7). Verdade é que é "pelo teu favor", mas, contudo somos propensos a estar ocupados com a nossa montanha e a nossa prosperidade; permitimos que estas coisas se interponham entre os nossos corações e o Senhor e deste modo convertem-se numa cilada para nós. Daí a necessidade de castigo.

Nosso Pai em seu fiel amor e cuidado vela por nós; vê o perigo e manda a provação, de uma ou outra forma. Pode vir um telegrama a comunicar a morte de um filho querido, ou a queda de um banco envolvendo a perda de todos os nossos interesses terrenos. Ou pode suceder estarmos de cama com dores e enfermidade, ou obrigados a velar junto do leito de um enfermo querido. Em suma, somos obrigados a atravessar águas profundas que parecem ao nosso pobre e covarde coração, absolutamente esmagadoras. 
O inimigo sugere a pergunta: "É isto amor?" A fé responde, sem hesitação e sem reserva: "Sim!" É tudo amor, perfeito amor; a morte da criança, a perda da fazenda, a enfermidade triste, lenta e penosa, toda a dor, toda a ansiedade, as águas profundas e as negras sombras — tudo, tudo é amor — perfeito amor e infalível sabedoria. 

Estou seguro disso, até mesmo neste momento; não espero até o saber mais tarde, quando, desde a plena luz da glória, volverei os olhos para todo o caminho; sei-o agora mesmo, e alegro-me em reconhecê-lo para louvor daquela graça infinita que me tirou do profundo da minha ruína, e se encarregou de tudo que me diz respeito, e que se digna ocupar-se das minhas falhas, loucuras e pecados, a fim de me livrar deles, para me fazer participante da santidade divina e conforme a imagem d'Aquele bendito Senhor que "me amou e se entregou a si mesmo por mim". Leitor cristão, este é o modo de responder a Satanás e aplacar os escuros argumentos que possam surgir em nossos corações. Devemos justificar sempre Deus. Devemos encarar os Seus atos judiciários à luz do Seu amor. "Confessa, pois no teu coração que, como um homem castiga a seu filho, assim te castiga o SENHOR". Certamente, não nos queremos ver sem a bendita garantia e prova de filiação.

“Filho meu, não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando, por ele, fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois, então, bastardos e não filhos. Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas, depois, produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela. Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados, e fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja se não desvie inteiramente; antes, seja sarado" (Hb 12:5-13).

É, ao mesmo tempo, interessante e proveitoso notar a maneira como Moisés insta com a congregação para que não esqueça os diversos motivos de obediência no passado, no presente e no futuro. Tudo é apresentado com o fim de avivar e profundar o seu sentido dos direitos do Senhor sobre eles. Deviam recordar o passado, considerar o presente, e antecipar o futuro; e tudo isto devia atuar sobre os seus corações, e guiá-los em santa obediência Aquele bendito Senhor que havia feito, estava fazendo e ainda havia de fazer tão grandes coisas por eles. O leitor atento dificilmente pode deixar de observar nesta constante exposição de motivos morais uma característica especial deste encantador livro de Deuteronômio e uma notável prova de que não se trata de intentar uma repetição do que temos em Êxodo; mas, pelo contrário, de que o nosso livro tem um alcance, um fim e um desígnio inteiramente próprios. Falar de mera repetição é absurdo; falar de contradição é irreverente.

"E guarda os mandamentos do SENHOR, teu Deus, para o temeres e andar nos seus caminhos." A partícula "e" tem força retrospectiva e prospectiva. Era destinada a guiar o coração sobre os atos do Senhor no passado e a apontar-lhe o futuro. Deviam pensar na maravilhosa história desses quarenta anos no deserto: o ensino, a humilhação, a provação, o cuidado vigilante, o ministério gracioso, o amplo suprimento de todas as suas necessidades, o maná do céu, a corrente da rocha ferida pela vara, o cuidado dos seus vestidos e dos seus pés, a disciplina salutar para o seu bem moral. Que poderosos motivos morais estavam aqui para a obediência de Israel! Mas isto não era tudo; deviam olhar também para o futuro; deviam antecipar a brilhante perspectiva que estava diante deles; deviam achar no futuro, assim como no passado e no presente, a base sólida dos direitos do Senhor sobre a sua reverente e sincera obediência.

Porque o Senhor teu Deus te põe numa boa terra, terra de ribeiros de águas, de fontes, e de mananciais, que saem dos vales e das montanhas;
Terra de trigo e cevada, e de vides e figueiras, e romeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel.
Terra em que comerás o pão sem escassez, e nada te faltará nela; terra cujas pedras são ferro, e de cujos montes tu cavarás o cobre. Deuteronômio 8:7-9


Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Deuteronômio.

*Ebenézer significa pedra da ajuda, ou gratidão, é um termo em hebraico. Pedra erguida pelo profeta Samuel para comemorar a vitória em um lugar onde tinham sido derrotados anteriormente.

domingo, 23 de julho de 2017

Vida Passada



“Se eu tivesse outra vida faria tudo diferente” – dizem. Ou “faria tudo outra vez”. Em outros tempos já brinquei que em outra vida devo ter caído numa boca de lobo, pois tenho muito medo de passar por cima delas. E quando vem aquele déjà vu, aquela sensação de ter visto ou vivido algo que na verdade não se viu e não viveu? Muitos falam que são lembranças de outra vida.

Graças a Deus não estamos à mercê de nós mesmos, de nossas próprias teorias e desejos, por mais insistentes e desobedientes que sejamos a verdade está bem presente. Se possível fosse viver mil vidas nenhuma delas mudaria nossa condição miserável de pecador. Nem para o mais nobre, caridoso e humilde homem. Contudo não estamos sem saída.

Estar ao Deus dará não é algo negativo como sugere o uso desta expressão. Deus é o único que realmente pode nos dar alguma coisa e nós nada temos a dar em troca.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3:16
Porquanto esta é a vontade de meu Pai: Que todo aquele que vê o Filho e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. João 40:6 
E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. João 17:3
Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor. Romanos 6:23

Crendo nessa verdade nós realmente passamos a ter outra vida no espírito, habitada pelo Espírito Santo, além dessa velha vida na carne, ou seja, nas velhas vontades, nos velhos desejos. E nada podemos fazer por essa velha natureza, mas o Senhor Jesus fez, condenou todo o mal e morreu por causa deles na cruz e ressuscitou! Ressuscitou! E todo aquele que crê não precisa mais temer a condenação nem se esforçar nenhuma vez por si próprio para alcançar a paz. 

Porque aprouve a Deus que nele habitasse toda a plenitude, e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus. Colossenses 29:20

É um grande desaforo para a pretensão humana ter a salvação da alma sem um único mérito de boa obra. Realmente ter uma vaga aberta para o céu ao lado de um ladrão sendo nós tão “honestos e puros” só porque ele, o ladrão, simplesmente creu no mesmo Salvador, Jesus Cristo, é muito desconfortável. Louvado seja Deus que não quer que ninguém se perca, nem perca tempo tentando salvar a si mesmo, ou se melhorar. 

Pois Cristo não entrou num santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para agora comparecer por nós perante a face de Deus; nem também para se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote de ano em ano entra no santo lugar com sangue alheio; doutra forma, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo; mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E, COMO AOS HOMENS ESTÁ ORDENADO MORREREM UMA SÓ VEZ, vindo depois o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma só vez para levar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação. Hebreus 9:24-28

Crês tu nisso? 
  

domingo, 9 de julho de 2017

Você vai estar lá? (Will You Be There)


Até os 24 anos eu nunca tinha perdido para a morte ninguém tão caro ao coração. Já tinha tomado conhecimento de falecimento de colegas de escola, o esposo de uma tia, um tio consanguíneo que não tinha muito contato. Nada muito impactante. No ano de 2009, no entanto, eu descobri o que era o luto e nunca chorei tanto na vida, por tantos dias consecutivos.

Foi em 25 de junho. Falecimento de Michael Jackson. Parece uma grande bobagem falar assim de um artista, mas minha relação com o Michael já escrevi aqui e aqui, e entendam ou não, ele era um ser humano que eu amava, e amo.

Mas como cristã, e na época recentemente convertida, ou mais consciente disso, fiquei muito apavorada com o destino eterno de Michael Jackson, sabendo de suas crenças em religiões que negam a divindade de Cristo e por isso rejeitam o único caminho e verdade que leva a Deus.

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim
. João 14:6

Cheguei a discutir ingenuamente com pessoas Cristãs há mais tempo que eu, quando perguntei a elas se existia esperança de Michael estar salvo, e claro, acabei ouvindo mais do mesmo: as notícias sobre o astro. Não fui muito clara, estava mais como uma irmã caçula preocupada com o destino do irmão mais velho, e não necessariamente preocupada com a opinião humana sobre o artista. Estava triste e desesperada buscando consolo, e não em busca de uma nova notícia que o condenasse pelas obras da carne – segundo a mídia. E confesso que usei um tom muito grosseiro nas minhas réplicas.

A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira. Provérbios 15:1

Hoje, oito anos depois, continuo não tendo nenhuma certeza, e acredito que certeza da salvação dos outros é algo muito raro, muitos professam crer e de fato não creem, e muitos não professam e sabe-se lá Deus o que aconteceu na derradeira hora! O Senhor Jesus levou consigo para o céu o ladrão que creu ali nos últimos minutos ao seu lado na cruz (Lucas 23:43). Pode chegar ao coração de qualquer um no seu leito de morte. O Senhor conhece os que são seus (2 Timóteo 2:19). Sei, porém que mesmo que a lista de acusações da mídia fosse verdadeira, nada disso tornaria Michael Jackson mais condenável ou desabonado para o céu, que qualquer um que não tenha feito “mal nenhum” a ninguém e não cresse no Salvador. 

Falando em fé, como um insight, me lembrei de uma canção de Michael Jackson que traduzi (sem ajuda da internet) em 2001 do álbum “Invincible” chamada: Heaven Can Wait. O céu pode esperar. Composta por Michael Jackson e Teron Beal, com apoio de Andreao Fanatic Heard, Nate Smith e Teddy Riley.

Um dos trechos da música dizia:

“Eu não sei o que eu faria, se eu não pudesse estar com você

O mundo não podia continuar desse jeito

Toda noite eu rezo

Se o Senhor viesse me buscar antes de eu acordar

Eu não gostaria de ir, se eu não pudesse ver seu rosto, não pudesse te abraçar forte

Que bom o Céu seria se os anjos viessem até mim e eu dissesse à eles: Não!”


Não vou entrar no mérito do absurdo que é preferir ficar no mundo por causa de uma pessoa a ir para o céu com o Senhor. Mas meu coração encheu-se de esperança pelo simples fato da música apresentar a ideia de ir para o céu, de o Senhor vir buscar, de um homem nas nuvens. Crenças impensáveis nas últimas experiências “religiosas” de Michael, e que fazem parte da verdade da Palavra de Deus, a Bíblia.

Embora de forma muito torta, a simples ausência de rejeição a fé Cristã e ao evangelho puro de Cristo já é de grande alívio. Também assisti alguns vídeos onde Michael comemorava o Natal com os filhos, após convencido por Elizabeth Taylor. Um dos vídeos mostrava a dificuldade com a festa por causa de sua crença anterior. Que alegria!

Não que o Natal seja alguma coisa, assim como a pretensão de dizer aos anjos “não”, que aqui não vejo mais como rejeição ao Senhor. Quem não cresse nisso não escreveria desta forma, ainda que fosse para no fim dizer-lhe não. Ainda que cheio de confusão, quero crer que este seja um indício da fé no Salvador Jesus Cristo pelo meu irmão de coração Michael Jackson.

Que quando enfim o Senhor veio buscar sua alma ele tenha lhe dito um lindo SIM! E que na promessa de um novo amanhã, como diz em sua canção de esperanças terrenas Will You Be There, eu o encontre lá, no céu.

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; Efésios 1:3

domingo, 11 de junho de 2017

Verdade desde o princípio


A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre. Salmos 119:160

É absolutamente impossível dar o valor devido ao privilégio de podermos recorrer à Palavra de Deus e encontrar nela, dia a dia, instruções completas sobre todos os pormenores respeitantes à fé e ao nosso serviço.

Tudo que necessitamos é uma vontade submissa, um espírito humilde, e um coração sincero. O livro que Deus deu para nos guiarmos é tão completo como podíamos desejar. Nada mais precisamos. Imaginar, ainda que seja por momentos, que alguma coisa pode ser acrescentada pela sabedoria humana constitui um insulto feito ao cânone sagrado (...).


Atualmente, mais do que em qualquer outra época, é necessário fazer chegar esta lição aos ouvidos da Igreja professa. De toda a parte surgem dúvidas sobre a suficiência divina das Sagradas Escrituras. Nalguns casos estas dúvidas são expressas abertamente e com propósito deliberado; noutros, com menos frequência, são insinuadas encobertamente por meio de alusões ou inferências. Dizem ao navegante cristão, direta ou indiretamente, que a carta divina não basta para os múltiplos e complicados pormenores da viagem—que tem havido tantas alterações no oceano da vida, desde que essa carta foi feita, que, em muitos casos, é inteiramente deficiente para os propósitos da moderna navegação.

Dizem-lhes que as correntes, marés, costas, canais e praias desse oceano são totalmente diferentes agora do que era há alguns séculos, e que, por conseguinte, temos de recorrer ao auxílio, que a moderna navegação dispensa, a fim de suprir as deficiências da velha carta, a qual, admitem, de fato, ter sido perfeita para a época em que foi escrita. O nosso veemente desejo é que o leitor cristão possa, com clareza e decisão, opor-se a este grave insulto feito ao Livro inspirado, do qual cada linha procede do coração do Pai, e foi escrita por homens inspirados por Deus Espírito Santo. Desejamos que possa contestar esse insulto, quer ele se apresente sob a forma de uma audaz blasfêmia ou sob uma astuciosa e plausível inferência. Seja qual for o disfarce com que se apresente, deve a sua origem ao inimigo de Cristo, que é o inimigo da Bíblia e inimigo da alma.

Se, na verdade, a Palavra de Deus não fosse suficiente, então, em que situação ficaríamos? Para onde nos voltaríamos? A quem nos dirigíamos pedindo socorro se o Livro do nosso Pai fosse, de algum modo, defeituoso? Deus diz que o Seu livro "pode instruir-nos perfeitamente para toda boa obra" (2 Tm 3:17). O homem diz: não; há muitas coisas sobre as quais a Bíblia não se pronuncia, e que, todavia, precisamos de saber. Em quem devemos crer? Em Deus ou nos homens? A nossa resposta aos que põem em dúvida a divina suficiência da Escritura é simplesmente esta: Ou não és homem de Deus, ou aquilo para que buscas encontrar aprovação não é "uma boa obra". Isto é bem claro e ninguém poderá vê-lo de outro modo se considerar cuidadosamente a passagem de 2 Timóteo 3:17.

Oh, se tivéssemos um sentimento mais profundo da plenitude, da majestade e da autoridade da Palavra de Deus! Temos absoluta necessidade de ser fortificados neste ponto. Precisamos de um sentimento profundo, vigoroso e constante da autoridade suprema do cânone sagrado e da sua completa suficiência para todos os tempos, climas e posições, para todos os estados pessoais, sociais, e eclesiásticos, de modo a podermos resistir a todos os esforços que o inimigo faz para depreciar este inestimável tesouro.Que os nossos corações compreendam mais do espírito destas palavras do Salmista: "A tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre " (SI 119:160).



Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Levítico, 1978, 2ª edição, tradução de Feliciano H. dos Santos.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Palavra de Deus - Parte 4


 "Porque toda carne é como a erva, e toda a glória do homem, como a flor da erva. Secou-se a erva, e caiu a sua flor; mas a Palavra do Senhor permanece para sempre" (1 Pe 1:24-25)

Aqui temos outra vez o mesmo precioso vínculo de ouro. A Palavra que chegou até nós, na forma de boas novas, é a Palavra do Senhor que permanece para sempre; e por isso a nossa salvação e a nossa paz são tão estáveis como a Palavra sobre a qual estão fundadas. Se toda carne é como a erva, e toda a glória do homem como a flor da erva, então que valor têm os argumentos dos infiéis? São tão desprezíveis como erva seca ou como a flor murcha; e os homens que os expõem e os que são influenciados por eles assim o compreenderão mais tarde ou mais cedo. Oh, a pecaminosa loucura de argumentar contra a Palavra de Deus — argumentar contra a única coisa neste mundo que pode proporcionar descanso e consolação ao pobre e fatigado coração humano —, agir contra aquilo que traz as boas novas de salvação a pobres pecadores —, que as traz diretamente do coração de Deus!

Toda a Escritura é Inspirada por Deus mas podemos deparar aqui talvez com a pergunta tão frequentemente suscitada, e que tem perturbado tantos e os têm induzido a buscar refúgio no que é chamado "A autoridade da Igreja". A pergunta é esta: "Como podemos nós saber que o Livro que chamamos a Bíblia é a Palavra de Deus? A nossa resposta a esta pergunta é muito simples, e é a seguinte: Aquele que nos tem dado graciosamente o bendito Livro pode dar-nos também a certeza de que o Livro procede d'Ele. O mesmo Espírito que inspirou os diversos autores das Sagradas Escrituras pode dar- nos a conhecer que essas Escrituras são a própria voz de Deus falando-nos. E somente pelo Espírito que alguém pode discernir isto. Como já temos visto, "O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus... e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."

Se o Espírito Santo não nos faz saber e não nos dá a certeza de que Bíblia é a Palavra de Deus, nenhum homem ou corporação humana poderá fazê-lo; e, por outro lado, se Ele nos dá essa bendita certeza não necessitamos do testemunho do homem. Admitimos de bom grado que, nesta grande questão, uma sombra de incerteza seria um positivo tormento e uma calamidade. Mas quem pode dar-nos essa certeza? Somente Deus. Se todos os homens na terra estivessem de acordo no seu testemunho sobre a autoridade da Sagrada Escritura; se todos os concílios que se têm realizado, se todos os doutores que têm ensinado, todos os pais que escreveram estivessem a favor do dogma da inspiração plenária; se a Igreja na sua totalidade, se todas as denominações da cristandade dessem o seu assentimento à verdade que a Bíblia é, realmente, a Palavra de Deus; numa palavra, se tivéssemos toda a autoridade humana possível a respeito da integridade da Palavra de Deus, seria insuficiente como fundamento da certeza; e se a nossa fé fosse baseada sobre essa autoridade, seria inteiramente inútil.

Só Deus pode dar-nos a certeza de que Ele tem falado em Sua Palavra; e, bendito seja o Seu nome, quando Ele nos dá essa certeza, todos os argumentos todos os subterfúgios, todos os sofismas, todas as questões dos infiéis antigos e modernos, são como a espuma sobre as águas, o fumo da chaminé ou o pó do soalho. O verdadeiro crente rejeita-as como sendo desperdícios desprezíveis, e descansa em santa tranquilidade na incomparável revelação que o nosso Deus graciosamente nos tem dado. É da maior importância para o leitor estar absolutamente certo e bem seguro quanto a esta grave questão, se quer elevar- se acima da influência da infidelidade por um lado e da superstição por outro. A infidelidade procura convencer-nos de que Deus não nos tem dado um livro de revelação dos Seus pensamentos — que não poderia dá-lo. A superstição procura convencer-nos de que embora Deus nos tenha dado uma revelação, nós não podemos, todavia ter a certeza disso sem a autoridade do homem, nem entendê-la sem a interpretação do homem.

Ora, é conveniente observar que, em ambos os casos, nós somos privados da preciosa dádiva da Sagrada Escritura. E isto é precisamente o propósito do diabo. Quer roubar-nos a Palavra de Deus; e pode fazer isto quase tão eficientemente por meio da aparente desconfiança própria, que humilde e reverentemente confia na autoridade dos homens sábios e instruídos, como por meio da audaciosa infidelidade que atrevidamente rejeita toda a autoridade, seja humana seja divina.

Pensemos neste exemplo. Um pai escreve uma carta a um filho que reside em Cantão — uma carta cheia do afeto e ternura do coração de um pai. Fala-lhe dos seus planos e preparativos; expõe-lhe tudo quanto julga poder interessar o coração de um filho — tudo quanto o amor do coração de um pai pode imaginar. O filho vai à estação dos correios de Cantão a fim de averiguar se há alguma carta de seu pai. Um funcionário dos correios diz- lhe que não há nenhuma carta, que seu pai não escreveu e não Poderia escrever — que não poderia comunicar de modo algum os seus pensamentos por tal meio; que é apenas tolice pensar tal coisa. Outro funcionário adianta-se e diz: "Sim; há aqui uma carta para você, mas provavelmente o senhor não pode entendê-la; é completamente inútil para você, na realidade só lhe pode causar dano visto que o senhor não é capaz de a ler corretamente. Deve deixar a carta nas nossas mãos e nós explicar-lhe-emos as passagens da mesma que julgarmos mais convenientes." O primeiro destes funcionários representa a infidelidade; o último, a superstição. O filho seria privado da carta desejada por ambos — da preciosa comunicação do coração de seu pai. Mas, nós podemos perguntar, qual seria a resposta a estes indignos funcionários? Podemos estar certos de que seria breve e pertinente. Diria ao primeiro: "Sei que meu pai pode comunicar-me os seus pensamentos por carta, o que ele já tem feito." E diria ao segundo: "Sei que meu pai pode dar-me a entender os seus pensamentos melhor do que os senhores podem fazê-los." Diria a ambos, e isto com ousada e firme decisão: "Deem-me imediatamente a carta de meu pai, é dirigida para mim e ninguém tem o direito de retê-la.”.

Assim também o crente de coração simples pode responder à insolência da infidelidade e à ignorância da superstição—os dois meios da ação do diabo, em nossos dias, para pôr de lado a preciosa Palavra de Deus. "Meu Pai me tem comunicado o Seu pensamento e pode fazer-me compreender a comunicação." "Toda a Escritura divinamente inspirada é." E "Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito." Magnífica resposta para todos os inimigos da preciosa e incomparável revelação de Deus, quer sejam racionalistas ou ritualistas!


Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Deuteronômio.
 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Palavra de Deus - Parte 3


"O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente."

Quem pensaria em escutar um cego sobre o assunto da luz e a sombra? E, todavia, um tal homem tem mais direito a ser ouvido do que um inconvertido sobre a inspiração. Os conhecimentos humanos, por mais extensos e variados que sejam; a sabedoria humana, por muito profunda que seja não podem qualificar um homem para emitir um juízo sobre a Palavra de Deus. Sem dúvida, um erudito pode examinar e comparar manuscritos simplesmente do ponto de vista crítico; pode ser capaz de formar um juízo quanto à questão de autoridade da leitura de qualquer passagem especial; mas isto é assunto muito diferente de um escritor incrédulo empreender a tarefa de emitir parecer sobre a revelação que Deus, em Sua infinita bondade, nos tem dado.

(...) É somente por intermédio do Espírito, que inspirou as Sagradas Escrituras, que essas Escrituras podem ser compreendidas e apreciadas. A Palavra de Deus deve ser recebida sobre a sua própria autoridade. Se o homem pode julgá-la ou discutir sobre ela, então não é a Palavra de Deus. Deus tem-nos dado uma revelação ou não? Se tem, deve ser absolutamente perfeita em todos os respeitos; e, sendo assim, deve estar inteiramente fora do alcance do juízo humano. O homem não é mais competente para julgar a Escritura do que para julgar a Deus. A Escritura julga o homem; não o homem a Escritura. Nisto está toda a diferença.

Nada pode haver mais miseravelmente vil do que os livros que os infiéis escrevem contra a Bíblia. Cada página, cada parágrafo, cada frase só consegue ilustrar a verdade da afirmação do apóstolo que, "O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente." A sua crassa ignorância do assunto de que se arriscam a tratar é apenas igual à confiança que têm em si mesmos. Da sua irreverência nada dizemos; pois quem pensaria encontrar reverência nos escritos dos incrédulos? Poderíamos talvez esperar um pouco de modéstia, se não fosse o caso de estarmos plenamente ao fato do ânimo amargo que dá origem a tais escritos e os torna inteiramente indignos de um momento de consideração.

Outros livros podem ser submetidos a um exame desapaixonado; mas o precioso Livro de Deus é abordado com a conclusão prévia de que não é uma revelação divina, porque, na verdade, os incrédulos dizem-nos que Deus não podia dar-nos uma revelação escrita dos Seus pensamentos. Como é estranho! Os homens podem dar-nos uma revelação dos seus pensamentos; e os infiéis têm-no feito claramente; mas Deus não pode. Que loucura! Que arrogância! Por que razão, é lícito perguntar, não pode Deus revelar os Seus pensamentos às suas criaturas? Porque há de se pensar que isso é uma cosia incrível? Por nenhuma razão, mas simplesmente porque os infiéis assim querem.

O desejo é, neste caso, seguramente pai do pensamento. A pergunta formulada pela antiga serpente, no jardim do Éden, há aproximadamente seis mil anos, tem sido transmitida, de século para século, por toda classe de cépticos, racionalistas e infiéis, isto é: "E assim que Deus disse?" Sim, respondemos nós, com muito prazer; bendito seja o Seu santo Nome, Ele tem falado — tem-nos falado a nós. Tem revelado o Seu pensamento; tem-nos dado as Escrituras Sagradas: 


"Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído par toda a boa obra"(2 Tm 3:16-17)

"Porque tudo que dantes foi escrito para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação das Escrituras, tenhamos esperança" (Rm 15:4).

Louvado seja o Senhor por tais palavras! Elas asseguram-nos que toda a Escritura é dada por Deus, e que toda a Escritura nos é dada a nós. Precioso vínculo entre a alma e Deus! Quem poderá contar o valor de tal vínculo? Deus tem falado — tem-nos falado a nós. A sua Palavra é uma rocha contra a qual se desfazem todas as ondas do pensamento infiel em desprezível impotência, deixando-a em sua força divina e eterna estabilidade. Nada pode afetar a Palavra de Deus. Nem todos os poderes da terra e do inferno, nem os homens nem os demônios juntos podem jamais remover a Palavra de Deus. Ela permanece em sua própria glória moral, a despeito de todos os assaltos do inimigo, de século para século. "Para sempre, ó SENHOR, a tua palavra permanece no céu." "...Engrandeceste a tua palavra acima de todo o teu nome." Que nos resta? Precisamente isto: "Escondi a tua palavra no meu coração para eu não pecar contra ti." Nisto consiste o profundo segredo da paz.

O coração está unido ao trono, sim, ao próprio coração de Deus por meio da Sua preciosíssima Palavra e está assim em possessão de uma paz que o mundo não pode dar nem tampouco tirar. Que podem conseguir as teorias, os argumentos e o raciocínio dos infiéis? Absolutamente nada. Têm tanto valor como o pó da eira no verão. Para aquele que tem aprendido realmente, pela graça, a confiar na Palavra de Deus — a descansar sobre a autoridade da Sagrada Escritura — as obras que os infiéis têm escrito são inteiramente desprezíveis, abstrusas [confusas], ineficazes; demonstram a ignorância e a terrível presunção dos seus autores; mas quanto à Escritura, deixam-na precisamente onde sempre tem estado e estará, "permanece no céu" tão firme como o trono de Deus. 


Os ataques dos infiéis não podem atingir o trono de Deus, nem tampouco podem afetar a Sua Palavra; e, bendito seja o Seu Nome, tampouco podem perturbar a paz que brota do coração que descansa sobre esse fundamento imperecível: "Muita paz têm os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço" e "...a palavra do nosso Deus subsiste eternamente." 

(Continua)

Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Deuteronômio.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Palavra de Deus - Parte 2



O Homem Natural é Inimigo de Cristo e da Palavra de Deus, este Livro julga o homem — julga os seus caminhos - julga o seu coração. Conta-lhe a verdade a seu próprio respeito. Por isso o homem não gosta do Livro de Deus. Um homem inconvertido prefere antes um periódico ou uma novela sensacional em vez da Bíblia. Lerá antes o relato de um julgamento num dos nossos tribunais em vez de um capítulo do Novo Testamento. Daí o esforço constante para encontrar defeitos no bendito Livro de Deus.

Os infiéis, em todos os tempos e de todas as classes, têm laborado com afinco para descobrir falhas e contradições na Sagrada Escritura. Os denotados inimigos da Palavra de Deus não se encontram somente nas fileiras dos vulgares, dos rudes e pervertidos, mas entre os educados, os polidos e civilizados. Assim como era nos dias dos apóstolos, em que "alguns homens perversos dentre os vadios" e "algumas mulheres religiosas e honestas" — duas classes tão afastadas uma da outra social e moralmente — encontraram um ponto em que podiam cordialmente concordar, isto é, a inteira rejeição da Palavra de Deus e daqueles que a pregavam (compare-se Atos 13:50 com 17:5), assim nós encontramos sempre homens que, discordando quase em tudo, concordam na sua decidida oposição à Bíblia.

Outros livros são deixados em paz. Os homens não se preocupam em achar defeitos em Virgílio, Horácio, em Homero ou Herodoto; mas não podem suportar a Bíblia porque ela lhes expõe e diz a verdade a respeito deles e do mundo a que pertencem. E não sucedeu exatamente o mesmo com a Palavra vivente — o Filho de Deus, o Senhor Jesus Cristo, quando aqui andou entre os homens? Os homens aborreceram-No, porque Ele lhes disse a verdade, o Seu ministério, as Suas palavras, a Sua conduta, toda a Sua vida era um perene testemunho contra o mundo; daí a amarga e persistente oposição que Lhe moveram; outros homens foram tolerados; mas Ele era vigiado e espiado em todos os Seus passos. Os grandes chefes e guias do povo consultavam entre si como "o surpreenderiam nalguma palavra"; buscando ocasião contra Ele a fim de que pudessem entregá-Lo à autoridade e poder do governador.

Assim foi durante a Sua maravilhosa vida; e, no final, quando o bendito Senhor foi cravado na cruz entre dois malfeitores, estes foram deixados em paz; não choveram insultos sobre eles, os principais dos sacerdotes e os anciãos não meneavam as suas cabeças ante eles. Não; todos os insultos, todo o escárnio, toda a grassaria* e cruel vulgaridade — tudo foi lançado sobre o divino Ocupante da cruz do centro. Ora, é conveniente compreendermos a fundo a verdadeira origem de toda a oposição à Palavra de Deus — quer seja à Palavra viva ou à Palavra escrita. Isto habilitar-nos-á a apreciá-la no seu verdadeiro valor.

O diabo aborrece a Palavra de Deus — aborrece-a com verdadeiro ódio; e por isso serve-se de descrentes instruídos para escreverem livros para provar que a Bíblia não é a Palavra de Deus, que não pode ser a Palavra de Deus, visto que há nela erros e contradições; e não apenas isto, mas que, no Velho Testamento, encontramos leis e instituições, hábitos e práticas indignos de um Ser misericordioso e benévolo! A todo este gênero de argumentos temos uma réplica breve e precisa; a respeito de todos estes incrédulos eruditos dizemos simplesmente que eles não conhecem absolutamente nada sobre a questão.

Podem ser instruídos, hábeis, pensadores originais e profundos, ilustres em literatura geral, muito competentes para darem uma opinião sobre qualquer assunto nos domínios da filosofia natural e moral, e muito capazes de discutir qualquer assunto científico. Além disso, podem ser muito amáveis na vida privada, caráteres verdadeiramente estimáveis, amáveis, bondosos, altruístas amados na sua vida privada e respeitáveis em público. Podem ser tudo isso, mas, sendo inconvertidos, e não tendo o Espírito de Deus, são completamente incapazes de fazer, muito menos de dar, um juízo sobre o assunto da Sagrada Escritura.

Se alguém totalmente ignorante em astronomia presumisse entrar em discussão sobre os princípios do sistema de Copérnico, estes mesmos homens de quem falamos o declarariam imediatamente incompetente para falar e indigno de ser escutado sobre tal assunto. Em resumo, ninguém tem o direito de dar uma opinião sobre um assunto que não conhece. Isto é um principio admitido por todos; e, portanto a sua aplicação ao caso presente não pode ser posta em questão. Ora, o apóstolo inspirado diz-nos, na sua primeira epístola aos Coríntios, que "o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente." Isto é concludente. Fala do homem no seu estado natural, seja qual for a sua instrução ou a sua cultura. Não fala de qualquer classe especial de homens; mas simplesmente do homem no seu estado inconvertido, o homem destituído do Espírito de Deus. Alguém pode imaginar que o apóstolo se refere ao homem num estado de barbárie ou de selvagem ignorância? De modo nenhum; refere- se simplesmente ao homem natural, seja um ilustrado filósofo ou um ignorante palhaço.

"Não pode compreender as coisas do Espírito de Deus." Como pode então ele formar um juízo ou emitir um parecer quanto à Palavra de Deus? Como pode tomar sobre si a responsabilidade de dizer o que é ou que não digno de Deus escrever e se for bastante audacioso para o fazer — e infelizmente é! — quem será tão néscio que queira escutá-lo?- Os seus argumentos são infundados; as suas teorias desprezíveis; os seus livros são apenas próprios para o cesto dos papéis. Tudo isto, note-se, baseado no princípio universalmente admitido e acima acentuado de que ninguém tem qualquer direito a ser ouvido sobre um assunto do qual é totalmente ignorante.
  


* Nota pessoal: A transcrição do texto utiliza o termo "grassaria". Entendo que o mais adequado talvez fosse "grosseria" pelo contexto, mas não tive acesso ao original para saber qual a expressão correta. 

Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Deuteronômio.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Palavra de Deus - Parte 1




(...) "toda a Escritura divinamente inspirada é" (2 Tm 3:16).

Palavras preciosas! Ah, se fossem entendidas de um modo mais completo nestes nossos dias! É da maior importância que o povo do Senhor esteja arraigado, fundado e estabelecido na grande verdade da inspiração plenária da Sagrada Escritura. É de recear que a lassidão quanto a este importante assunto se vá estendendo na igreja professa a uma aterradora proporção. Em muitos setores tem chegado a ser moda tratar com desdém a ideia da inspiração plenária¹. É considerada como verdadeira criancice e sinal de ignorância. É admitido por muitos que é indício de uma profunda educação literária, de ideias liberais e de originalidade intelectual, ser-se capaz, por livre crítica, de achar defeitos no precioso livro de Deus.

O homem toma a liberdade de julgar a Bíblia como se ela fosse uma mera composição humana. Aventura-se a pronunciar-se sobre o que é e o que não é digno de Deus. De fato, isto equivale efetivamente a julgar Deus. O resultado imediato é, como podia esperar-se, profundas trevas e confusão tanto para esses mesmos eruditos doutores como para todos os que são tão néscios que os escutam. E quanto ao futuro, quem pode conceber o destino eterno de todos os que terão de responder ante o tribunal de Cristo pelo pecado de blasfêmia contra a Palavra de Deus e por desviarem centenas de almas com o seu ensino infiel?

Não ocuparemos, contudo, o tempo detendo-nos sobre a estultícia dos infiéis e céticos — embora chamados cristãos — ou os seus mesquinhos esforços de desacreditar o incomparável volume que o nosso benigno Deus mandou escrever para nosso ensino. Um dia eles reconhecerão o seu erro fatal. Deus queira que não seja demasiado tarde! E, quanto a nós, que seja o nosso maior gozo e consolação meditar sobre a Palavra de Deus, a fim de podermos descobrir sempre novos tesouros nessa mina inesgotável — quaisquer novas glórias nessa revelação celestial!


(...) 

Não ficamos nós constantemente surpreendidos com o seu maravilhoso poder de adaptação ao nosso próprio estado e aos dias em que caiu a nossa sorte? Fala-nos com elevação e frescura como se fosse escrita expressamente para nós — escrita neste mesmo dia. Nada há como a Escritura. Tome-se qualquer escrito humano da mesma época do livro de Deuteronômio, e, se puderdes lançar mão de algum livro de há três mil anos, que encontrareis? Uma curiosa relíquia da antiguidade, alguma coisa para ser colocada num museu lado a lado com alguma múmia egípcia sem ter qualquer aplicação a nós ou aos nossos tempos, um documento cediço, uma peça de escrita obsoleta, praticamente inútil para nós, referente a um estado de sociedade e a uma condição de coisas passadas e enterradas no esquecimento.

Pelo contrário, a Bíblia é o livro para estes dias. É o Livro de Deus, a Sua perfeita revelação. É a Sua própria voz falando a cada um de nós. É um livro para todas as épocas, para todos os climas, para todas as classes, para todos os estados, elevado ou baixo, rico ou pobre, culto ou ignorante, velho ou novo. Fala uma linguagem tão simples que uma criança pode entendê-la; e, no entanto, tão profunda que o mais gigantesco intelecto não pode esgotá-la. Além disso, fala diretamente ao íntimo do coração; toca as fontes mais profundas do nosso ser moral; penetra no recôndito das raízes do pensamento e sentimento da alma; julga- nos completamente. Em suma, é, como nos diz o apóstolo inspirado: "viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração" (Hb 4:12).

E, além disso, note-se o seu maravilhoso alcance. Trata com tanta precisão e energia dos hábitos e costumes, maneiras e máximas do décimo nono século da era cristã como dos próprios séculos da existência humana. Mostra um perfeito conhecimento do homem em qualquer época da sua história. Londres dos nossos dias e Tiro de há três mil anos estão retratadas com igual precisão e fidelidade nas páginas sagradas. A vida humana, em qualquer grau do seu desenvolvimento, está descrita por mão de mestre nesse volume maravilhoso que o nosso Deus tem graciosamente escrito para o nosso ensino. Que privilégio possuir tal Livro! Podermos ter em nossas mãos uma revelação divina! Ter acesso a um Livro no qual cada linha é dada por inspiração de Deus! Ter uma história divinamente concedida do passado, do presente e do futuro! Quem pode apreciar devidamente um tal privilégio como este?

(Continua)

¹ Inspiração plenária significa que a inspiração se estende desde às palavras escolhidas (verbal) aos conceitos, ideias e temas tratados nas Escrituras (plena).

Autor: C. H. Mackintosh, extraído dos estudos sobre o livro de Deuteronômio

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Eutanásia



Estava ouvindo um programa de rádio que diariamente debate os principais assuntos em pauta na mídia e um dos temas do dia foi: “Abreviar a vida de quem sofre terrivelmente, sem perspectiva de melhora, pode ser a melhor resposta que um médico pode dar”. Esta é a opinião do médico holandês Rob Jonquière publicada pela revista VEJA com o enunciado “Eutanásia, um ato de amor”. 

Muito me admirou a concordância unânime dos participantes e ouvintes que se manifestaram sobre o direito humano de atentar quanto à própria vida, ou dos familiares de autorizar o ato a fim de poupar o sofrimento nos casos de doenças declaradas irreversíveis. Ouvi coisas como “Deus há de entender”, “Um leito de UTI custa caro”, “existem sofrimentos onde a alma já está negociando com Deus”.

Quão miserável é o homem que acha que pode negociar com Deus, Ou, que daria o homem pelo resgate da sua alma? Marcos 8:37.” Sem dúvida a medicina humana pode declarar certas doenças incuráveis e irreversíveis. A questão não é simplesmente a vontade sincera de obter cura e alívio para o mal, ou a vida no corpo que possui uma natureza corrompida e por isso adoece e morre. Recentemente escrevi aqui uma reflexão sobre um livro que romantizou o suicídio assistido de um tetraplégico e virou best seller e agora mais uma vez o tema voltou mostrando-se cada vez mais popular e natural. A questão é eterna. O alívio imediato é garantia do que diante de uma alma imortal?

Existiu um homem que relatou um sofrimento intenso da seguinte forma: Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas.
A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte
e ainda Poderia contar todos os meus ossos. Eram os sofrimentos de Jesus Cristo (Salmos 22:14,15;17). Muita coisa além do sofrimento físico estava envolvida no episódio da cruz, e simplesmente imaginá-lo fez com que Ele dissesse: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. Lucas 22:42”.

"Não beberei eu o cálice que o Pai me deu?" João 18:11

Eutanásia quer dizer em sua origem grega “morte boa” ou fácil. Abreviar a dor como dissera. Não há espaço em um coração crente para duvidar da disposição do Senhor Jesus Cristo em cumprir a obra segundo a vontade do Pai em perfeita obediência e condução do Espírito Santo:Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" Filipenses 2:6;8. Jesus sendo Deus quando feito homem não usurpou ser igual a Deus e por tão pouco o homem sendo pecador arruinado usurpa desse direito que não é direito é rebelião! Tudo isso é o exemplo de que do começo ao fim, independente do tamanho da dor, bendita seja a vontade de Deus declarada na sua palavra.


Não há dúvidas de que a angústia e sofrimento tenham seu lugar e seja motivo de reflexão para quem sofre a dor e para quem está em volta sofrendo junto. Mas quem de nós sabe os planos de Deus e todas as obras invisíveis que ele opera nos corações dos homens diante dessa breve tribulação do homem nesse mundo? Não saber quais são estes planos nos detalhes não justifica o desejo de abreviar a vida, pois se somos crentes temos o Espírito Santo para nos consolar durante esse momento e se não cremos quão mais assustadora se torna esta decisão que poupa o corpo do sofrimento presente para ter a alma lançada no tormento eterno!

"Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?" Romanos 8:35


Os nossos sofrimentos têm seu propósito, e em muitos casos vemos que a doença leva mais homens a Cristo de que momentos religiosos e de gozo do mundo. Deus é amor, disseram no programa de rádio. Sim, Deus é amor, e sem duvidas em cada minuto de nossas vidas ele está derramando seu amor, seja atraindo os incrédulos a Cristo pelo sofrimento de um amado cristão ou velando até o último segundo de vida de um incrédulo na tentativa de convertê-lo para que se salve. Precipitar a morte seria apenas a vitória de Satanás na sua missão de afastar o homem de Deus.


"Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia.
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente;
Não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas."


2 Coríntios 4:16-18


domingo, 28 de maio de 2017

Perfume de Missa



Tive o imenso privilégio de nascer num lar cristão. Ao contrário do que ouvi certa vez de que a “minha base de conhecimento está em cima de uma religião evangélica”, nada podia estar mais fora de contexto, pois nasci numa família católica. E não bastasse isso tinha uma repulsa tradicional por tudo que continha o selo gospel, ou seja, evangélico. Eu tinha horror a crentes! O que não era propriamente uma opinião racional era só algo que eu tinha aprendido no ambiente.

Recordo com carinho de quando a família ia reunida à missa, era uma ocasião solene que exigia as melhores roupas - por mais pobres que fossemos sempre tínhamos as “roupas de sair” – e também me lembro do perfume característico que minha mãe distribuía em nossos “cangotes” e lá íamos à “igreja”. Poucas coisas são dignas de nota.

Lembro que apesar da tradição fui batizada somente aos doze anos, para não morrer pagã, visto que minhas convulsões epiléticas tinham começado e ninguém sabia ainda do que se tratava. Lembro-me do terrorismo que faziam sobre “não mastigar a hóstia” que eu, criança, me consolava por não ser obrigada a participar por não ter feito o ritual da 1ª Comunhão. Lembro também de um cântico do coral que dizia “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, Tende piedade de nós. Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, Dai-nos a paz!”.

A Palavra de Deus que é viva encontrou caminho até o meu coração por um sacerdote católico muito famoso, que tinha uma forma muito diferente de tratar o evangelho, naquele tempo, falava muito de Jesus e pouco (quase nada) de religião. Considerando que eu só tinha um livretinho do Novo Testamento e a leitura da bíblia não era um hábito doméstico e nem na “igreja” pouco significava para mim a expressão Cordeiro de Deus, mas o pecado do mundo eu fazia uma ideia. “Que pecado falar isso!” “Que pecado fazer aquilo!” Eu também não sabia que todos nascemos pecadores e por isso pecamos. Como ouvi de um irmão de fé uma vez: o limoeiro está destinado a produzir limões e o pecador a produzir pecados.

De todas as bem intencionadas almas religiosas a minha volta, que tanto temia por minha doença e me privava de ir ao mercadinho da esquina para poupar-me de perigos, ninguém nunca mencionou o perigo de viver um segundo a mais que fosse sob o risco da condenação eterna. Que existia um Deus justo o suficiente para exigir a condenação do pecador e um Deus igualmente misericordioso que providenciou seu Filho Santo, Jesus Cristo, para se sacrificar em nosso lugar, tal qual o cordeiro sem mancha era usado antes pelo povo de Israel para purificá-los dos pecados no judaísmo instituído pelo próprio Deus.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. João 3:16

Em nenhum outro lugar ou caminho há salvação. Nem para o mais bondoso e caridoso incrédulo, nem para o professante religioso de qualquer credo que duvide desta mesma verdade ou a rejeite. Ninguém. Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. João 14:6. Aprendi pela fé que não fazia sentido cantar todo domingo “Cordeiro de Deus Tende piedade de nós” e “Dai-nos a paz”, pois a obra foi consumada! Cristo apiedou-se de nós e enfrentou o castigo que merecíamos de uma vez por todas e para todos. Por Ele é dada a paz com Deus, aos que creem, sem que precisemos pedir repetidamente. Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Romanos 5:1

Muito mais acertadamente hoje canto:

Em pecado foste feito, 

Por nós, tão vis, lá na cruz; 

O juízo recebeste, 

Dando-nos a paz, Jesus.

Ó Cordeiro, de Deus Filho, 

Te louvamos Salvador; 

E sabemos que Teu brilho 

Nos farás ver, em fulgor*!


E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave. Efésios 5:2

Hoje posso dizer que sou crente, não no sentido corrente de filiada a uma religião dita “evangélica”. Não me converti a uma religião, mas a Cristo Jesus, Salvador.

* Hino Quão Imensa Foi a Graça! (Oh The Deep, Deep Love of Jesus) Ton-Y-Botel; Ebenezer; 
Estêvão;


domingo, 30 de abril de 2017

Onde está a Graça?


No coração do palhaço às vezes mora uma farsa, mas com a cara pintada, despercebido ele passa. Palhaço também é gente, seu coração também sente a dor de alguma desgraça. E o palhaço o que é? É ladrão de mulher! Trecho da canção: O Mundo do Circo

Conheço e admiro pessoas que dedicam seu tempo para levar um pouco de riso e humor para o necessitado, pessoas que muitas vezes pintam o rosto e se fantasiam não por profissão, mas por caridade bem na filosofia de Patch Adams, doutores da alegria, e outras correntes semelhantes. Por menor que seja o ato de caridade, um pouco de conforto é bom.

Já participei de uma ação beneficente para crianças junto com um grupo do curso técnico, fui fantasiada e foi muito bacana, mas por incrível que pareça o que mais me marcou foi o olhar triste escondido atrás da alegria contida de ganhar presentes e chocolates e brincar com a Chiquinha, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, entre outras personagens que nos vestimos. Existia uma dor muito maior que com a nossa partida voltaria a dominar. A caridade, o humor, o riso são remédios, sem dúvida são de grande ajuda. Mas como disse o trecho da música do Teixeirinha o coração sente a dor de alguma desgraça.

Esta experiência me fez perceber que falta em todos nós algo que seja duradouro, uma certeza que preencha um vazio na alma, e que todo bem que possamos fazer ao próximo não é capaz de preencher, nem para quem faz o bem nem quem recebe o bem. O palhaço é conhecido por fazer graça, mas a palavra graça significa favor, benevolência. Engraçado é aquele que é agradável, cheio de graça. Nem sempre um palhaço é engraçado, às vezes ele é apenas divertido, te faz olhar para o lado inverso do seu problema.

Vemos no mundo religioso e secular muito movimento a fim de divertir o público, música, dança, teatro, versão popular e gospel de um mesmo conteúdo. O que é um grande perigo. Ninguém que esteja constantemente entretido, distante de suas dificuldades e de sua miséria consegue se reconhecer perdido e pecador o suficiente para achar a graça, ou para disseminá-la. O Salvador veio ao mundo para salvar pecadores, miseráveis, sofredores. O Senhor não veio escolher os justos, mas os fracos.

"E Jesus, tendo ouvido isto, disse-lhes: Os sãos não necessitam de médico, mas, sim, os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores ao arrependimento". Marcos 2:17. 


Afinal onde está a graça? Onde há Cristo, há graça. E aqui se aplica o sentido de gratuito, favor imerecido, sem que nada tenha sido feito em troca para ter recebido algo. Nada me causa maior cuidado que manter próximo aos olhos de um incrédulo (aquele que não crê em Cristo como Salvador) a certeza de que não é o bem que fazemos que nos faz ganhar pontos numa escala evolutiva ou nos salva de um perigo eterno, é a fé em Cristo que nos livra da condenação, porque Deus é justo e misericordioso.

"Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?" Mateus 16:26


Muito melhor é amar e servir ao próximo porque fomos amados e libertados de graça! Rendemos graças a Deus (aqui no sentido de gratidão) por sua misericórdia. Nada vale mais que uma alma por quem o próprio Deus entregou seu precioso filho Jesus para morrer na cruz, para que a justiça fosse feita, e o salário do pecado (a morte) fosse pago.

O palhaço diverte e
, diz a música, é ladrão de mulher. A fé em Cristo converte, diz a palavra, ao ladrão e a mulher e assim achados em seus delitos nada terão a pagar, nem dar o tanto dos bens de sua casa em troca. Suas consciências não aceitará distanciar qualquer outra pessoa da possibilidade de perder o conhecimento da mesma graça, e não é uma questão de preconceito contra doutrinas que negam a verdade. É uma questão de princípio, pela certeza que melhor que dar o que alivia é manter perto Aquele que salva. 


sábado, 22 de abril de 2017

Depressão Incolor

Cena do Filme Never Let Me Go

Palmadas não livra ninguém da depressão. 

A disciplina, a correção na infância é importante, pois é a fase que os pais têm para educar e guiar seus filhos nos caminhos que acham certo. E mesmo as crianças que foram castigadas por seus erros na hora adequada não estão imunes da depressão. É muito fácil diagnosticar falta de surra para um deprimido e não ajudar.

Até meus 11 anos de idade tudo corria bem na minha vida, exceto o fato de que minha mãe não curtia a presença de coleguinhas em casa e na escola eu percebia que existia essa relação muito próxima entre elas e eu nem imaginava como era. Aos 12 começaram as crises epiléticas, e aí se pudessem não me deixariam nem ir à escola quanto mais na casa de colegas! Zelo.

E assim segui minha vidinha de casa para escola e da escola para casa até concluir o ensino médio. Minhas férias, feriados e finais de semana eu passava em casa. Aulas vagas, em casa. Excursão da turma, em casa. Ai que dó! Não, não é o objetivo causar pena, até porque passou! Vão me entender mais a frente.

Nesse período não tinha acesso à internet em casa. Meu acesso a novos horizontes eram bem restritos. Como escrevi aqui, com essa onda da Baleia Azul, muitos criticam as crianças pelo uso inadequado da tecnologia, como se a tecnologia fosse a grande responsável pelas fragilidades delas. Tomei muita chinelada e isso não foi vacina contra a depressão.

A disciplina na minha infância e juventude me deixou alerta sobre as más intenções do mundo. Aprendi que na dúvida é melhor desconfiar; aprendi que chorar faz parte e que minhas lágrimas não vão comover quem não quiser ser comovido; aprendi que só nos ajuda quem quer e muitas vezes somente se a gente pedir; aprendi que o que não é dito não é considerado e às vezes o que é dito também não. Aprendi um monte de coisas que nem sei se estão certas, mas serviram como freio para muitos pensamentos horríveis com que tive que lidar ao longo da vida.

É aparentemente mais fácil para Satanás tentar uma criança sujeita a centenas de estímulos virtuais e reais do que uma criaturinha como eu na época cercada pela mãe nos 4 cantos da casa. Ledo engano. Eva não tinha mãe, mas também não tinha TV e internet e a serpente a encontrou e a fez pecar. Mas eu saí na vantagem sobre Eva, pois como disse, aprendi com minha mãe a desconfiar. (Vantagem mais literal que real, pois Eva tinha a presença de Deus!).

Já não era mais adolescente, mas ainda estava no meu confinamento, quando o acesso a internet chegou em casa (meus irmãos já usavam internet fora de casa). Consegui me reconectar com meus colegas de escola e descobri que quase todos estavam casados, com filhos. Vi que o mundo tinha girado para todos menos para mim. Aqui começou o problema. Olha a tal tecnologia! Não, foi à luz sobre os fatos. Se as notícias tivessem chegado por carta o efeito seria o mesmo.

Nesses meus primeiros contatos com o mundo virtual encontrei um site que muito me ajudou em uma centena de dúvidas a respeito da vida, de Deus, da fé. O site é www.respondi.com.br. Achei muito conteúdo interessante do autor. Mas não confiei cegamente, só continuei e continuo acompanhando-o por encontrar respaldo de tudo que ele escreve em seus blogs. Tive sorte por ter encontrado um blog de um tiozinho que tinha abandonado a macrobiótica e não o do de um psicopata sedutor que podia me induzir a uma série de absurdos e quem sabe ao suicídio? Não chamo de sorte. Uma parte eu chamo de mãe a outra de Deus.

Após 1 ano com internet me inscrevi num curso técnico e voltei a estudar. Terminei o curso comecei a trabalhar, entrei para a faculdade, terminei a faculdade, fui promovida e isso tudo foi em apenas 6 anos! No final de 2015, quando a correria estabilizou e aparentemente eu não estava mais tão atrás na corrida da vida, me bateu aquela depressão. E adivinhem o que eu ouvi? Merece palmadas! Quem pega o bonde andando acha que é frescura!

Se você é adulto, fica a dica: cuidado em para quem você pensa em pedir ajuda. Muitas vezes a mesma pessoa que te ajudou um dia sem saber que o fez, não é capaz de fazer o mesmo se for acionada para tal. Desconfie. Nestas horas temos a principal saída que é a oração para quem tem fé, (quem não tem fé oro para que tenha, pois não há alternativa) e apesar dos preconceitos a psicoterapia ajuda muito a entender a falta de lógica da mente na tomada de certas ações e que podem ser tomadas conscientemente daqui para frente! Ao contrário do que pensam e dizem um psicólogo não vai ameaçar a sua fé e convencê-lo a seguir Buda ao invés do Senhor Jesus. Se você quiser ser induzido a isso, será escolha sua e você nem vai poder culpá-lo se decidir negar a cruz.

Leia também Altruísmo x Depressão

sábado, 8 de abril de 2017

Sangue Derramado


Recentemente ocorreu uma série de acontecimentos que parecem nada ter a ver um com o outro, mas que tocou em algo dentro de mim que me fez refletir um pouco. Certa vez conheci um rapaz muito bonito, de presença forte, rígida, intimidativa. Daquelas pessoas que sem perceber queremos evitar a todo custo e dependendo da situação até nos esquecemos de que é um ser humano com sonhos, alegrias, tristezas. Parecia mais uma máquina de trabalhar que executava tudo com uma precisão e qualidade ímpar. No entanto, uma notícia vinda há, exatamente, um ano desse encontro me chocou de uma forma incompreensível: ele está com um problema de saúde grave e afastado de suas atividades. Esse foi o primeiro acontecimento.

Uma irmã de fé, nos últimos tempos também adoeceu e também foi afastada de suas atividades e soube disso de uma forma não muito convencional para quem já foi tão próxima. Esse foi o segundo acontecimento. O terceiro foi um sincero convite que compartilhei com meus contatos para um evento beneficente, onde correram duas semanas sem nenhuma confirmação, e que uma mensagem de um amigo me fez desiludir do meu espírito benfeitor.

De onde veio tanta compaixão pelo rapaz sendo que quando tive oportunidade mal olhei nos seus olhos diante da sua presença? Nem preciso ir muito longe, ele é uma pessoa admirável, só que era um encontro de duas personalidades fortes e de dura cerviz, onde o seu personagem, por assim dizer, não permitia um embate pessoal e muito menos profissional. Mas imaginá-lo fora de sua armadura, me levou a olhá-lo mais a fundo, e eu sei o que pode existir além da força e rigidez.

Minha irmã de fé era alguém com quem eu vinha buscando sem muito tato marcar um encontro para conhecer sua recém-nascida (na ocasião). Diversas vezes tive meu objetivo frustrado, sem desconfiar que existisse algo de errado, afinal se não estivesse tudo bem 
ela teria me dito... Pretensiosa. Tudo que me vinha à mente era um sentimento de falta de consideração. O mesmo sentimento me veio com os convites frustrados de dupla causa beneficente, a minha e a do evento. Sabe aquela do ninguém me ama, ninguém me quer?

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que pacientemente já assistiu diversas de minhas crises existenciais, e sempre ao fim de uma “sofrência” me lembra de que o Seu divino amor me salvou dos meus pecados, e que toda a fraqueza da carne, as fragilidades do sangue, dos hormônios, tudo que nos atinge no corpo físico não deve nos abalar. O Senhor me tem por amiga, filha de Deus Pai pela fé em seu sacrifício.

Por esse amor que corre em mim, pelo poder do Espírito Santo, que eu consigo olhar além da minha própria teimosia para o coração do jovem enfermo, por quem estou cheia de zelo, pois me vejo nele em muitos aspectos. E
spero que ele esteja bem em sua alma, pois o físico dá para administrar até a vinda do Senhor para nos buscar. Por esse amor que oro do meu modo confuso, pela minha mana para sua recuperação, ou como disse pela administração do velho homem que infelizmente temos que carregar enquanto vivermos aqui. Esse velho corpo que adoece, que padece frio, calor, fome, sede. Esse velho corpo sensível e carente, que mendiga abraços e sorrisos, e quando não recebe sofre. Por esse amor pude ouvir com um pouco de dor algumas verdades sopradas em meus ouvidos, que provavelmente foram pensadas por muitos, mas apenas um sincero me permitiu conhecer os fatos e assimilar mais uma lição.

Que a limitação do corpo liberte o potencial do espírito, que as circunstâncias revelem seu aprendizado, e que se o Senhor quiser que a minha presença acrescente o que quer que seja na vida dos seus amados, estou à disposição, afinal “jovem serva” é o significado do meu nome.

Que o único sangue derramado a nos lavar daqui para a frente seja o precioso sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador.

E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do novo testamento, que por muitos é derramado. Marcos 14:24

quarta-feira, 8 de março de 2017

Dia da Mulher


Dia 08 de Março, Dia Internacional da Mulher. Existem vários fatores históricos que explicam a origem desse decreto nesta data, que já foram largamente abordados por outros. Datas comemorativas me deixam ressabiada, pois ainda que eu não me apegue aos detalhes das comemorações, não consigo me furtar de acompanhar os comentários.

Essas datas trazem um enfoque para algo que nada tem a ver com o que está sendo comemorado. Por exemplo: Natal fala de Papai Noel, Chester, Perú, presente, ceia; Páscoa fala de coelho, ovo de páscoa, presente; Dia das mães fala de presente; dias das crianças – presente. Quase tudo termina com presente. O Dia da Mulher, contudo ainda está em processo de terminar assim.

O propósito é sutilmente tirar de cena aquilo que a mulher realmente representa para Aquele que a criou. Ajudadora do homem, dona do lar, trabalhadora, vaso mais fraco. Sim, vaso mais fraco. Um vaso frágil não é um vaso de menos valor, é apenas mais delicado, possui outra natureza, foi criado para outros propósitos.

As mulheres hoje deixaram de ser vasos de roseiras e andam suportando jacarandás! Estão aguentando aquilo que plantaram. Para onde esse dia lança o olhar das pessoas? Para as rebeliões contra o homem, para a "liberdade" sexual, contra as mães que eram da geração “ultrapassada”, para as futilidades como reivindicar direitos de usar minissaias sem serem assediadas. O assedio é gerado pela falta de respeito do homem para com a mulher e não necessariamente pela roupa. Até parece que só estupram mulheres seminuas!

De onde surge a falta de respeito? Do fato do homem e da mulher estarem fora de seus lugares. Há muito que o homem deixou o sustento da casa, deixou de fazer com que o suor do seu rosto trouxesse o alimento, há muito que o homem abandonou seu lugar de pai, marido, irmão. Com a degradação da ordem estabelecida para os homens, as mulheres começaram a ocupar seus lugares, afinal alguém tem que fazer as coisas fluírem, certo? Errado.

Um vaso de rosas não suporta um jacarandá sem prejuízo para sua natureza. Não devemos nos esforçar por nos conformar com o jacarandá, temos que pedir arrego, e perguntar ao Criador qual o verdadeiro caminho. Não precisamos fazer o que os homens fazem, não precisamos parecer com os homens, somos o que somos, belas, frágeis, sábias, mulheres!

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus. Romanos 12:2