quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Meu Riso





Durante minha infância tive vergonha do meu sorriso. Eu tinha os dentes da frente separados e grandes, só tirava fotos com sorriso forçado segurando para os dentes não aparecerem. Com o tempo os dentes foram fechando, ainda bem, pois eu não tinha condições de colocar aparelho.

Durante a adolescência o problema não era mais os dentes, mas, segundo diziam, o tamanho da boca. Sofri bullying, recebi todo tipo de apelido maldoso: Royal, Coringa... Era a moda do batom vermelho, minha irmã tinha me dado alguns num tom bem forte, realçavam meus lábios, porém o efeito foi nocivo. Qualquer coisa era motivo para me sacanearem, logo perdi o prazer de sorrir novamente.

A fase do bullying passou, e embora ninguém mais cismasse com meu sorriso ele perdeu um pouco do brilho. Assim que conclui o ensino médio passei por um longo período de isolamento em casa, longo mesmo, nove anos. Durante esse tempo desenvolvi formas de me ocupar, escrever poesias foi a primeira delas. Eu comecei a escrever aos 13 anos, mas minha melhor fase foi pós-escola. Tinha tempo ocioso para criar, o ócio e a tristeza tem sua utilidade, eu posso zombar da cara delas transformando-as em arte!

“Minha alegria eu enterrei nas covas do meu sorriso”. Escrevi. As covinhas que se formam em meu rosto quando sorrio são um traço particular pelo qual sempre tive muita consideração, tenho uma boneca há 29 anos (sim ela tem minha idade!) chamada Kelly que minha mãe comprou quando eu era bebê por ter as mesmas covinhas no rosto. Então usei esse detalhe e compus uma poesia, várias delas, quem leu as julgaram tristes. Sou uma pessoa que escreveu coisas tristes usando como tema o sorriso, vai entender!

Quando sai da minha clausura e enfim voltei a estudar notei que passou a ocorrer o inverso, meu sorriso atraia as pessoas. Na universidade meu apelido era sorriso, no curso de atualização fui homenageada por estar sempre sorrindo apesar de toda uma história repleta de dramas e sofrimentos que poucos sabem.

Então parei para pensar nessa reviravolta. Quem me tirou de onde eu estava foi Deus. Diversas vezes na vida me senti o último dos seres humanos, acuado, no fundo do poço (Do poço d’onde eu te gritava/E me lançava nas paredes/Eu via um sinal que me animava:/Ao meu redor o musgo verde!). Às vezes é necessário que percamos todos os recursos para aprendermos que na verdade nunca tivemos recursos nenhum para nos salvar! Foi quando me vi sozinha, sem amigos, sem estudar, sem trabalhar, família batalhando pelo pão de cada dia, e eu querendo atenção, precisando de carinho, de saúde, que pude enxergar o único que poderia me dar mais que isso, poderia me dar NOVA VIDA!

Meu contato com a Palavra de Deus até então vinha de um livro com o Novo Testamento, Salmos e Provérbios dado na escola no ensino fundamental, muito fundamental isso. Eu lia e relia e admito que não entendia nada com nada, usava vezes como amuleto, repetia salmos como mantras, curtia o “sermão da montanha”, mas aquilo me dava medo, faltava uma coisa para que eu pudesse gozar com liberdade daquela maravilha. 

Faltava crer nAquele que o livro anunciava. No entanto ali no silêncio externo e naquele barulho interno com qual eu vivia, Deus estava me moldando e me preparando para uma grande revelação. Um dia, não sei dizer com precisão quando, comecei a me interessar por Jesus Cristo, tive acesso a Bíblia completa pegando a da minha irmã escondido, era chato, pois ela guardava coisas dentro da Bíblia como se tivesse poderes mágicos de abençoar o objeto, carta, ou fotos ali colocados. Alguém já fez isso? Eu já... a minha era pequena mas algumas coisas já coloquei ali!

A segunda Bíblia foi presente da minha cunhada para minha mãe, e eu também lia escondido, eu sentia que o interesse genuíno pelo Senhor não era bem visto em meu lar, principalmente sem nenhuma expressão religiosa. E tentando conhecer o Senhor Jesus Cristo ouvi muito blá-blá-blá religioso. No entanto com isso, Deus estava me mostrando que daquela forma eu também não chegaria a conhecer a expressão da verdade.

Um dia eu percebi que poderia voltar a sorrir sem medo, segui “atenta a sina que me espera, ao medo que chega e não vence”; Enfim passei a crer que existia uma Pessoa que por amor havia entregue sua vida padecendo pelos nossos pecados, para glorificar a Deus e preparar uma nova criação. A minha velha criatura como a de todos os que creem e os que não creem, realmente estava e está no fundo do poço, se dependesse de mim, talvez eu não estivesse aqui para contar esta história.

Antes eu era uma criatura perdida em meus conflitos, vítima do pecado que corrompia a minha natureza. Ainda que eu não tenha tido oportunidade ou vontade de cometer coisas que as pessoas julgam “graves pecados”, quem nunca pecou que atire a primeira pedra! Na verdade, diante de Deus não existe pecado grande ou pequeno. Existia pecado e pecadores. O poder do pecado Deus tirou do mundo pelo sacrifício de Jesus Cristo, pois o que de pior o pecado poderia nos causar era a morte e Jesus venceu a morte na cruz, e todo aquele que crê no Filho não perece e tem a vida eterna (João 3:16).

Quanto aos pecadores resta o tempo de hoje (ou mais precisamente agora) para que aqueles que ainda não creem, o recebam e vivam. Para mim, hoje Deus olha e vê Jesus Cristo, é isto que acontece com os salvos, Deus não enxerga mais os meus pecados, e as minhas fraquezas também não chegam aos seus olhos, tudo passa pelo crivo do Senhor, e Ele nos fala e ajuda pelo seu Espírito Santo que habita em cada crente.

Poucos me veem falando de religião, mas muitos me veem sorrindo e escrevendo sobre Cristo. Hoje tenho motivos para sorrir, olho no espelho e vejo um lindo sorriso de menina, que realmente eu não enxergava. Nem em minhas fotos de antigamente, algumas com sorriso forçado, outras nem tanto, mas não era a mesma coisa. Hoje meu sorriso não vem de algo que eu tenha feito e que me deixa feliz e orgulhosa, vem de algo que fizeram por mim de graça!

De vez em quando aquela menina bocuda com dentes arreganhados insiste em me aborrecer, ela me faz chorar. Contudo é passageiro, precisamos desapegar da velha mania de querer ligar o mundo dos mortos ao dos vivos, pois esta é a relação daquela que eu fui com a que eu sou segundo a Palavra de Deus (Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte? Romanos 7:24)

Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Romanos 8:1

Hoje o meu sorriso é mais bonito do que jamais foi, gosto de sorrir em fotos, gosto de sorrir para o espelho, não por vaidade, embora agora eu me sinta uma mulher bonita, hoje minha alegria vem do reconhecimento de tudo que passei, e que mesmo as lágrimas que me trouxeram até aqui, e outras tantas que ainda rolam, são obras de Deus para Si, sou instrumento Dele, e se este sorriso com suas covinhas servirem para mostrar que este corpo morto há de ressuscitar incorruptível por Cristo Jesus, já valeu a pena sorrir.

Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Lucas 6:21